Risco de acidentes cresce na mineração

13/12/2010

Setor teve aumento de ocorrências desde 2006, e ritmo acelerado de produção traz possibilidade de mais casos

O aquecimento pós-crise do setor de mineração, que teve expansão de 16% na comparação do terceiro trimestre de 2010 ante igual período de 2009, cria empregos e divisas para o país, mas traz o risco de crescimento no número de acidentes de trabalho. Dados do Ministério da Previdência revelam que, no caso da mineração de ferro, desde 2006 o número de acidentes não para de aumentar. No país, de cada dez acidentes, seis são em Minas Gerais.

Na mineração de metais preciosos, o pico nos acidentes foi em 2008. De lá para cá, metais como o ouro se valorizaram e motivaram projetos que vão elevar o ritmo de produção e exigir maior rigidez no cumprimento das regras de prevenção.

A atividade mineradora é tratada no Ministério do Trabalho como de risco 4, o que corresponde ao maior nível de classificação. Pelos riscos inerentes à extração mineral, os custos para seguir as regras de prevenção são altos.

A necessidade de desembolsar dezenas de milhões de reais anualmente com segurança do trabalho tem um peso muito alto no orçamento de uma pequena mineradora, o que induz à negligência de regras em algumas delas. Especialistas apontam estes empreendimentos como os vilões da história, embora os grandes players do setor não estejam isentos de casos de acidentes.

Os dados da Previdência revelam que, em 2008, o número de acidentes na mineração de ferro aumentou em Minas Gerais quatro vezes mais que no país. Enquanto no Brasil houve alta de 3,8%, de 1.050 acidentes registrados em 2007 para 1.090 no ano seguinte, em Minas o salto foi de 15,3% - passou de 579 para 668 no mesmo período.

Por causa da crise econômica, o menor ritmo de atividade no segmento a partir do último trimestre de 2008, até parte de 2009, poderá fazer o número de acidentes cair nos dados de 2009, que ainda não foram divulgados pelo governo. No entanto, com o crescimento acelerado do setor neste ano, atrelado sobretudo à demanda chinesa, os acidentes poderão ser mais numerosos.

No caso da mineração de metais preciosos, de 2007 para 2008 foi contabilizado um avanço de acidentes em Minas, também muito superior ao da média do país. No total, os acidentes no segmento, no Brasil, tiveram expansão de 16,6%, atingindo 470 no ano. O Estado respondeu por 128 acidentes, e teve uma variação positiva frente ao ano anterior de 54,2%.

De acordo com os especialistas, o salto dos acidentes no setor dos metais preciosos, como o ouro, está ligado à valorização no mercado. Quando a crise financeira desajustou os negócios nas bolsas de valores, os investidores buscaram a segurança do ouro e outros metais negociados em bolsas de mercadorias, elevando as cotações e impulsionando a operação das minas.

Legislação é mais rigorosa no Brasil

Embora o ritmo acelerado de produção venha acompanhado de um aumento nos acidentes de trabalho, o professor de lavra subterrânea da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), José Margarida da Silva, observa que o risco é parte da atividade mineradora. O risco é maior quando a mina é subterrânea, mas a possibilidade de ocorrer nas lavras do país o que o mundo assistiu no Chile, com 33 mineiros presos em uma mina após um desabamento, é baixa.

“Nossa legislação é mais rígida. Exige, por exemplo, duas entradas na mina subterrânea e vários caminhos alternativos para chegar até ela. Mas o risco sempre existe na mineração”, pondera. Outro fator que colaborou para a diminuição dos riscos de acidentes é o conhecimento técnico para exploração minerária, que aumentou muito nos últimos anos a partir do estudo da mecânica das rochas, que consiste na descoberta de novas formas de escavação e construção de túneis para transporte da produção.

A coordenadora do programa “Mineração de segurança no trabalho”, do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Cláudia Pellegrinelli, reconhece que nas mineradoras de menor porte a situação é mais grave. Segundo ela, as grandes empresas trabalham com normas internacionais, muitas vezes com técnicas trazidas de suas matrizes, além de terem uma disponibilidade financeira maior. As pequenas mineradoras são conduzidas por famílias, na maioria das vezes, e que ainda não trabalham com conceitos mais modernos, como sustentabilidade. “A legislação é muito ampla e complexa, requer investimento em um amplo aparato de segurança”, diz.

Empresas investem em prevenção

A AngloGold Ashanti Mineração vai investir diretamente em segurança do trabalho R$ 13 milhões em 2010. A empresa opera minas na superfície e subterrâneas, podendo atingir uma cava de 1.200 metros de profundidade, com um total de 2.111 trabalhadores nas lavras. Os recursos são aplicados em medicina do trabalho, equipamentos e treinamento de pessoal.

De forma indireta, o volume investido em segurança envolve cifras muito maiores, conforme o diretor de Desenvolvimento Humano e Organizacional, Ricardo de Assis Santos. Todas as máquinas utilizadas nas operações possuem cabines com proteção acústica, térmica e respiratória.

Embora compartilhe da ideia de que o crescimento do setor de mineração possa aumentar proporcionalmente o número de acidentes, ele destaca o avanço que o setor já conseguiu nos últimos anos. De acordo com ele, no início da década de 90, o setor trabalhava com uma média de 45 acidentes para cada milhão de horas trabalhadas. Em âmbito internacional, a mineração hoje tem uma média de 6,5 acidentes por milhão de horas.

A AngloGold, porém, detém taxas mais favoráveis. Em 2009, a empresa contabilizou 1,6 acidentes por milhão de horas trabalhadas e, neste ano, com 9 acidentes registrados, a empresa opera com 1,3 acidentes para cada milhão de horas trabalhadas. “A meta não pode ser diferente. Buscamos zerar os acidentes”, afirma Santos.

Na V&M Mineração, a aposta é no diálogo. Diariamente, os cerca de 600 trabalhadores das minas estão expostos a riscos como detonação de explosivos, contaminação por poeira e rompimento de taludes, mas a empresa desenvolveu inúmeros projetos para conscientizar o trabalhador. Para o engenheiro de segurança do trabalho da empresa, Scharmack Vieira, embora seja investido até além do que exige a Lei, o principal é a conscientização. “Todos os dias, antes das atividades, temos uma conversa sobre segurança do trabalho. Isso é essencial”, diz. A V&M Mineração optou por não divulgar seus indicadores de acidentes e também não informou o valor dos investimentos na segurança do trabalhador.
 
China tem maior índice

O acidente com os mineiros no Chile, em outubro, chamou a atenção do mundo. Eles ficaram 69 dias soterrados em 700 metros de profundidade em uma mina de cobre e ouro no Norte daquele país. Uma megaoperação foi organizada e teve êxito no resgate das vítimas, já que todos sobreviveram.

Outro caso parecido, que não teve o mesmo clamor da sociedade, ocorreu uma semana depois do resgate dos chilenos e não teve final feliz. A mina de Pingyu, na cidade de Yuzhu, na China, teve a entrada bloqueada depois de uma explosão de gás, quando 276 homens trabalhavam em seu interior.

O número de trabalhadores mortos chegou a 37. As operações de resgate foram prejudicadas pelas 2.500 toneladas de pó de carvão que invadiram as galerias. A indústria mineradora chinesa é considerada a mais perigosa do mundo, com cerca de 2.600 vítimas fatais em 2009, segundo estatísticas oficiais - provavelmente, muito abaixo da realidade. Em novembro, outro acidente na China, em uma mina de carvão, deixou mais de cem vítimas fatais.

No Brasil, o caso mais marcante ocorreu há 26 anos, em Urussanga, em Santa Catarina, e é considerado a maior tragédia da mineração no país. Após uma pane no sistema de ventilação da mina subterrânea, o calor provocou um incêndio seguido de explosões. Houve a morte de 31 mineiros a 80 metros de profundidade.

De lá para cá, não houve caso parecido. Mas acidentes com dimensões menores são frequentes. No mês de outubro, em Congonhas, na região de Campos das Vertentes, três funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) morreram em serviço. Eles trabalhavam na montagem de um equipamento de transporte de minério, quando uma peça se soltou e eles teriam caído de uma altura de aproximadamente 20 metros.

As empresas de mineração começam a ter contato mais direto com novas tecnologias que permitem reduzir os riscos de acidentes. Máquinas com tecnologia avançada, com operação autônoma, já estão em operação em alguns locais do mundo, como Chile e Austrália.

Na Austrália, o investimento em novas soluções para a mineração é uma necessidade, uma vez que as condições de trabalho são muitas vezes precárias. Dentro das lavras, em períodos de calor mais forte, a temperatura chega a 45º e, em estações mais frias, a 40º negativos.

Por este motivo, a experiência de operar máquinas de forma remota cresce no segmento. No Chile também existem experiências neste sentido.

No Brasil, a Vale deverá ser pioneira. A mineradora planeja para 2011 o início de testes com caminhões autônomos. Eles possuem uma capacidade de transporte de 240 toneladas e não precisam de motorista. A mineradora já utiliza a robótica para a limpeza dos caminhões, antes da manutenção nas oficinas, e também desenvolve sistemas de telemetria e monitoramento das máquinas.

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