Comunidade rural de Santa Maria de Itabira ganha luz elétrica, por meio do programa e Luz para Todos, e exploração de minério de ferro; tudo ao mesmo tempo
Basta algumas horas sem luz elétrica para a vida doméstica de qualquer família que reside no meio urbano ficar paralisada. A eletricidade parece ser tão necessária quanto a comida, o ar ou qualquer outro item indispensável à sobrevivência. Mas na vida de cerca de 20 famílias da comunidade de Cuité, região rural de Santa Maria de Itabira, ter acesso a essa condição básica é novidade. Em pleno século XXI, era das inovações tecnológicas e da velocidade da informação, elas ainda esperavam ansiosas a chegada da energia para poder ter em casa bens considerados comuns como TV, máquina de lavar, geladeira entre outros. Para estes moradores, 2010 passa a ser, literalmente, um ano iluminado.
A reportagem esteve na localidade um dia após algumas residências receberem as ligações elétricas, por meio do programa Luz para Todos, do Governo Federal, e constatou o clima de felicidade. José João Fidelis, de 88 anos, é um dos homens mais antigos da comunidade e ainda estava sem acreditar no que presenciava. A primeira noite sob uma lâmpada fluorescente ele passou de luz acesa, só para ter a emoção de estar, pela primeira vez em mais de oito décadas, livre da fumaça da lamparina à querozene.
“Fiz até uma festa. Comprei uns foguetes para dar uns tiros”, disse o senhor, aposentado, ao se aproximar da geladeira e retirar dela um litro de refrigerante, gelado. Sua esposa, Maria Felipe, de 89 anos, estava ao lado, também sorridente, e apontava para o tanquinho de lavar roupas e a televisão recém-adquiridos, à espera do técnico de instalação.
Foram 11 meses desde os primeiros postes até a chegada, de fato, da energia. O sábado ensolarado marcou o fim de longas décadas de espera por promessas políticas, e o início de uma vida mais confortável na roça. Agora, técnicas seculares de armazenamento de alimentos perecíveis, azeite e querozene para iluminação noturna e chuveiros frios poderão ser substituídos pelas máquinas tecnologicamente mais avançadas. E como a era é da informação, ela também chegará mais rápida a estas casas, através da televisão, item prioritário na lista de aquisições de praticamente todos os moradores.
Juversino dos Santos Rodrigues e Geysiane Aparecida Pereira Rodrigues já compraram a sua. Eles são casados há cerca de três anos e têm uma filha. A casa onde moram foi construída recentemente, mas notícias do mundo todo chegam à sala, ainda sem sofá, através dos mais de 30 canais de TV que são sintonizados pela antena rural. “A luz para nós é também a chegada de uma vida melhor”, resumiu Juversino, enquanto assistia a um programa dominical junto de sua esposa e filha.
Mineração
Coincidentemente Cuité presencia outro cenário de mudança. Há um ano e oito meses, a empresa Rede Gusa – que trabalha também com siderurgia e celulose – começou a escavar as primeiras minas no Pico do Minério, uma das serras mais altas das redondezas, com a promissora expectativa de melhorar o desenvolvimento local. Na época, a luz ainda parecia um sonho distante, mas todos ficaram animados com a notícia.
A crise em 2009, entretanto, forçou a mineradora a interromper por sete meses o projeto que ainda estava no começo. Na ocasião, a empresa já estava extraindo o minério, consertando os trechos mais críticos das estradas e cuidando das questões burocráticas, junto aos órgãos ambientais. Tudo ficou atrasado. Mas a esperança de dias melhores não morreu e as operações estão sendo retomadas aos poucos. Este ano, com a recuperação da economia, a mineração voltou a funcionar, e veio exatamente junto da energia elétrica.
Segundo a Rede Gusa foram investidos R$ 3 milhões na estrutura para uma capacidade de produção instalada de 25 mil toneladas/mês. Para um futuro próximo, esta capacidade de extração pode chegar a 60 mil toneladas/mês, com implementação de equipamentos mais sofisticados, logística e documentação adequada, além de gerar mais empregos.
A empresa pretende atuar por, no mínimo, 20 anos, e fechar contratos de venda do produto também com a Vale. Atualmente, além dos indiretos, são gerados 30 empregos na pequena mina, mas estudos apontam que há possibilidade de abertura de novas unidades de exploração nas imediações.
Antes da possível expansão, contudo, o obstáculo do transporte, maior problema enfrentado pela Rede Gusa, precisa ser superado. Devido às estradas estreitas, cheias de buracos, morros e curvas, caminhões traçados carregam o minério da mina até Hematita, distrito de Antônio Dias, a partir de onde um comboio de carretas conclui o trajeto da matéria-prima ao seu destino, em Ipatinga, na unidade da Usiminas. A organização informou que constantemente dispõe de máquina para reparar danos emergenciais nas vias, sem a participação da Prefeitura.
Mas mesmo com os obstáculos, os habitantes do lugarejo dizem que a luz no fim do túnel está mais acesa do que nunca. A energia chegou, a exploração do minério também, mesmo que ainda tímida. Mas em 20 anos de vida útil da mina, tudo pode mudar; quem sabe Cuité atraia também outros investimentos e se transforme num pólo. É esperar e acreditar.